Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

After Peter

Um blog pessoal despido de preconceitos onde mostro ser quem sou, do que gosto e como penso. Será um pouco de mim, um pouco do mundo, um pouco de nada. @pedro.miguel.carvalho

26 de Outubro, 2020

Somos dois diferentes

After Peter

20201026_133200_0000.png

Se ainda hoje me perguntarem se gostava de ser filho único, a resposta certamente é SIM! No entanto, não significa que não goste da minha irmã...

A nossa história começou já há 26 anos, quando a minha mãe me disse: Sabes Pedro, a mãe vai ter um bebé. E eu chorei!... Depois os meus pais lá me convenceram que iria ser giro ter um irmãozinho com que brincar e fui sendo convencido.

Uns meses mais tardes, enquanto assistia a qualquer episódio do MCGyver, em casa da minha avó, o telefone toca, e no fim a minha avó com um sorriso rasgado diz: Sabes Pedro, vais ter uma irmã. E eu chorei!...

Até que no dia 24 de fevereiro à noite a minha mãe chegasse ao pé de mim e diz: Pedro, vais ter de ir dormir com os avós porque a mãe vai para a maternidade ter a mana. E eu pensei: mas que porcaria ainda nem sequer nasceu e já me está a estragar os planos e a minha vida santinha..., E eu respondi, está bem, mas só depois de acabar a Grande Noite na RTP. E assim foi.

No dia seguinte já existia um ser que eu não saberia como lidar. Quando chegou a casa era enfezada, feia, aliás como todos os bebés que vi mas que as pessoas teimam em dizer que são bonitos. E eu pensei: É isto, não fala, não se mexe, só chora... Qual vai ser a graça?
E não sabia o que viria a acontecer...

As nossas vidas foram tornando-se reais, o primeiro banho em conjunto onde quase que te matava – juro que estava mesmo a ver quanto tempo é que aguentavas debaixo de água – as nossas primeiras brincadeiras juntos. A minha irmã sempre fez o que eu queria, ora brincávamos aos jogos sem fronteiras, ora tentava transformá-la numa manequim, a desfilar os vestidos criados por mim feitos de sacos de plástico, ora sendo a minha marionete nas mil e umas teatrices que fazia. Por vezes fazia-lhe a vontade e lá deixava a menina vender-me umas caixas de medicamentos – há hábitos e pancadas que nunca mudaram...

Depois foi a vez de mudar, do irmão embirrante apenas, para o irmão protetor. Ensiná-la a estudar, ensina-la a fazer resumos das matérias para os testes, a exigir, a cuidar dela pela força das circunstâncias, a obrigá-la a ser tal como eu o melhor da turma.

Nem sempre foi fácil, eu a querer ser um pai que não era, e ela a não querer ser uma filha que sabe que foi.

O tempo foi passando, e passámos muito... tristezas, alegrias, tudo de bom e coisas muito más. Mas isso fortaleceu-nos e tornou-nos Homem e Mulher com Maiúsculas.

Eu terminei o meu curso comecei a trabalhar diariamente, e dos primeiros dinheiros que juntei foi para realizar alguns sonhos nossos. Fomos à Disneylândia de Paris, chorámos a ver o fantasma da Ópera em Londres, fizemos tantas coisas e tão felizes, mas claro como não podia deixar de ser com algumas birras à mistura.

Depois tu terminaste esse curso infindável e difícil, sei o suor que derramaste para o ter, o esforço que tiveste de fazer, mas já está, e agora tal como em criança és a doutora da farmácia.

Quem nos conhece a ambos, diz que não é preciso passar algodão para descobrir as nossas semelhanças, físicas nem por isso... também não merecias estes quilos a mais que tenho... mas de expressões faciais, de palavras, do riso, da boa disposição, do coração, do orgulho.

Por sermos 2 diferentes, somos apenas 1.


Obrigado por tudo o que me deste e por tudo o que quiseste receber.

O futuro ninguém sabe mas espero que seja ao teu lado

Assim te escrevo estas palavras:

Era uma vez uma bebé que acabada de nascer, desejada por uns mas não por todos, sentiu que tinha uma missão.

Era uma vez uma criança que criou uma estrela de cicatrizes na sua testa, essa estrela guiou-a ao longo dos tempos.

Era uma vez uma gaiata, de cabelo negro um olhar escondido por detrás de uns óculos que estudava livros de encantar.

Era uma vez uma criança que quando se sentia triste chorava, mostrava a sua dor, mas essa mesma criança ouvia, entendia, e ganhava coragem para viver.

Era uma vez uma adolescente que acreditava no seu sonho, que queria porque queria, e seguiu em frente.

Era uma vez uma rapariga que trocara os nenucos por pinturas, os livros de crianças por saltos altos e divirtia-se.

Era uma vez uma giraça que ignorava quem merecia e abraçava quem precisasse.

Era uma vez uma universitária que vestiu a sua capa, que acreditou, que estudou, que lutou muito e acabou por conseguir o que queria.

Era uma vez uma farmaceutica que sorria atrás de um balcão por entre caixas de medicamentos.

Era uma vez uma sonhadora que chorava quando o fantasma descia do candelabro cantando as nossas canções.

Era uma vez uma viajante que queria descobrir mundo e partiu.

Era uma vez uma mulher que queria ser apenas uma mulher, uma mulher determinada, corajosa, guerreira e acima de tudo feliz.

Era uma mulher que acreditava, que sonhava e que conseguiu ter dois bebés pequeninos, prematuros, heróis.

Era uma vez um menino homem que amava essa mulher e que agora tem de partilhar esse amor com mais 2.

Adoro-vos