Recordações da Minha Terra
A beleza da minha terra é algo de maravilhoso, não por ser a mais bela e rara mas por ser minha.
A Azóia é e será sempre a minha terra. Aquela aldeia pacata da freguesia de Colares, esquecida por muitos mas "achada" pelo mundo.
Longe vai o tempo de Invernos cinzentos, repletos de nevoeiro com a buzina do farol da Roca.
Longe vai o tempo em que do farol emanava a luz que nos fazia saber que estava a chegar a casa.
Longe vai o tempo dos campos dos moinhos repletos de papoilas ou das velhas que percorriam os caminhos repletos de poças de água com os seus lenços e xailes, qual mulçumanas, a cobrirem-lhes a cabeça.
Mas muito se mantém. As coisas boas como a união entre pessoas a lutarem por algo em que acreditam, e coisas más como a cusquice que aquece a inveja do ser humano.
Hoje percorri alguns desses caminhos e fui recordando peripécias e aventuras de criança.
Lá fui até ao largo dos catarinos passando pela escola velha que tanta sede nos matou na sua fonte.
Percorri aquela rua do peraduço onde roubavamos uvas quentes pelo sol e que degustavamos como se fossem algo de extraordinário.
Desci ao Pinhal Carvalho, onde tantas vezes brinquei e onde tantas vezes me esfolei.
Subi aquelas pedras para ver as centrizes e avistar o Cabo da Roca do ponto mais belo, aquele que é só nosso e que os turistas ainda não descobriram.
Subi ao Campo da Bola, onde corri e brinquei, onde joguei à bola, onde me lembro de ver o extinto Atlético a jogar e as mulheres sentadas no monte a gritar pelos nossos pais.
Nesse campo onde depois andei de mota, onde fizemos fogueiras, onde em anos de loucura bebíamos as nossas cervejas e fumámos os primeiros cigarros deitados por cima dos balneários.
Passei no Dom Quixote, mas preferi relembrar as vezes que saltei aquele portão de madeira da casa do moinho para ir mergulhar na piscina de um qualquer veraneante abastado que aqui tinha a sua casa de fim de semana.
Desci ao Rio Touro, e lembrei-me das muitas farras que fizemos na casa abandonada.
Fui até ao Guincho Velho e fiquei a ouvir aqueles seixos a rolar pelo mar adentro.
Hoje recordei o passado, recordei a minha terra do antigamente, das histórias e das fábulas que se ouvia, das tradições que muitos se esquecem, do quase extinto modo de falar azoiano.
Corra o mundo que consiga conhecer, viva onde viver, aqui fui e sou feliz.